Violência Doméstica: um chamado para agir antes que seja tarde demais
JUSTIÇA SOCIAL
Ana Margarida
10/6/20255 min read


Violência Doméstica:
Um Chamado para Agir Antes que Seja Tarde Demais
Não conto nada de novo quando vos digo que o que mais afecta as mulheres neste país é a violência doméstica.
Temos informação, organizações, associações de apoio e ainda prevenção (principalmente nas escolas). Então, por que razão a Igreja parece não se envolver o suficiente no assunto?
Permitam-me explicar-vos um pouco da minha urgência em falar sobre o tema, já que agressores podem ser encontrados em qualquer contexto, até dentro de lares cristãos.
Poderia começar por mencionar que a ideia de se esconderem atrás de uma máscara de família ideal, com os valores ideais e ainda com as crenças certas, é o plano perfeito para se esconderem. Mas não vou entrar por aí, começo pelo que sei e vi.
A minha infância...
Desde que me entendo por gente pude perceber que o ambiente da minha casa não era como deveria ser. Não precisei que a violência me fosse explicada porque a vi com os meus próprios olhos desde tenra idade.
Éramos uma família disfuncional, é certo. Nunca conheci o meu pai, morava com a minha mãe (solteira), e os meus avós moravam numa casa mais adiante na mesma propriedade.
O meu avô era um homem muito alto e forte. Destacava-se de muitos homens da Beira Baixa e orgulhava-se de ser filho do seu pai “o Paulino” – homem conhecido por ser violento. Tanto que o ouvi dizer inúmeras vezes que haveria ser pior que o próprio pai.
Acabou por replicar tudo o que o viu por parte do seu pai e à minha avó não lhe faltaram avisos de que a sua vida seria um autêntico inferno se ela não se afastasse do meu avô enquanto era tempo. Afinal de contas, o namoro era bastante tranquilo e não havia qualquer indício de que o filho seria igual.
Naquela altura, ambos criados dentro da tradição católica, a minha avó não conseguia perceber porque o meu avô mudara tanto depois do casamento. Mas, estando inseridos num contexto de ditadura numa pequena aldeia de Castelo Branco, não havia muito a fazer se não acatar os maus-tratos.
Com o passar dos anos chegaram os filhos que não se escaparam dos maus-tratos físicos, emocionais e psicológicos. Mais tarde, as netas e é aqui que entro na história. Tanto eu como a minha prima fomos poupadas de agressões, pois o meu avô nunca nos tocou com um dedo, mas não fomos poupadas de assistir a espectáculos de horror.
Lembro-me de estar sempre em estado de alerta e de não entender porque os momentos de tranquilidade não perduravam. Havia sempre um motivo para começar uma discussão que acabaria com choro de duas mulheres estendidas no chão.
Nesta fase, já a minha avó e a minha mãe tinham se convertido ao Senhor, optando por deixar a vertente católica e abraçando a protestante. Não foram poucas as vezes que vi a minha avó orar e a crer na transformação do meu avô. Assim como não foram poucas as vezes que as vi a irem ao posto da GNR fazer mais uma queixa.
Mais de um pecado e mais do que um crime
Além disso, não apenas falamos de um pecado como de um crime e, como tal, tem a sua consequência: prisão – que, em Portugal, as penas podem ir de 3 a 10 anos (dependendo se estes acontecimentos são na presença de menores).
A meu ver – e há quem possa discordar de mim – a Igreja deveria ser a primeira a denunciar estes casos e a agir em favor das mulheres que sofrem por parte dos seus companheiros os mais variados tipos de violência (física, psicológica e emocional, financeira e material, e sexual).
Por vezes, em nome da família de valores e que sirva de exemplo para a sociedade, calamos as vozes daquelas que sofrem entre quatro paredes. Denunciar o marido agressivo seria uma desonra, seria acabar com a instituição que Deus estabeleceu.
Mas, se me permitem… não consigo acreditar que Deus prefira uma mulher destruída ou morta, do que a uma mulher divorciada, mas sã e salva. Não consigo acreditar que Deus queira filhos debaixo de um ambiente hostil e perverso, em vez de crianças longe do pai, mas seguras de que não irão repercutir o que viram e que nem lhes serão causados mais danos.
Afinal de contas, não nos libertou Jesus para sermos verdadeiramente livres? Não há qualquer jugo de escravidão sob o qual devamos ser escravos, muito menos estas mulheres. E se a dúvida ainda é o facto de Deus ser contra o divórcio eu pergunto: será que o marido que agride a sua esposa física, verbal, emocional e sexualmente… não a abandonou há muito tempo?
Na verdade, não é apenas a mulher que foi abandonada, mas também os votos que prometeu diante de Deus. E ainda que o homem não cumpra com a sua palavra, não quer dizer que Deus se esqueça do que foi prometido.
Ainda terei mais a falar sobre o assunto, pois um só artigo não é suficiente. Pode-se considerar este o primeiro onde o principal objectivo é preparar para os que virão.
E por fim...
Falar sobre violência doméstica é desconfortável, mas manter o silêncio é tornarmo-nos cúmplices.
A Igreja precisa ser refúgio, não tribunal; precisa ser Voz, não eco de tradições que perpetuam o sofrimento.
Este é apenas o início de uma conversa necessária, porque calar nunca será opção.
Que possamos ser Igreja com coragem, compaixão e responsabilidade.
Antes que seja tarde demais.
Se este tema te despertou e queres saber mais sobre como a Igreja pode agir de forma prática, há redes dentro do Movimento Lausanne que oferecem recursos e caminhos de envolvimento.
A Rede Crianças em Situação de Risco trabalha na proteção de crianças em contextos de vulnerabilidade e abuso.
A Rede Crianças e Família apoia o fortalecimento das famílias e o cuidado espiritual e emocional nos lares.
E a Rede Liberdade e Justiça mobiliza cristãos em todo o mundo a agir contra a injustiça e a violência em todas as suas formas.
Cada uma delas lembra-nos que cuidar dos vulneráveis é também participar na missão de Deus — e que a transformação começa quando escolhemos não ficar em silêncio.
Se estás em situação de violência doméstica — não estás sozinha.
Há ajuda disponível, a qualquer hora.
Se a tua vida ou segurança estão em risco, liga 112.
Para apoio especializado e confidencial, contacta:
Linha Nacional de Emergência Social (24h): 800 202 148
SMS de emergência: envia mensagem para 3060
APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima: www.precisodeajuda.pt| 116 006
AMCV – Associação de Mulheres contra a Violência: www.amcv.org.pt | Apoio por WhatsApp - clica aqui


Ana Margarida
Como a Ana costuma dizer... "Tudo o que faço é uma extensão do que sou — e do propósito para o qual fui criada."
Colaboradora da RTM Portugal, professora de EMRE e parte da Riverside International Church Algarve.
Conhece mais do trabalho da Ana em amargaridablog.com e ouve o podcast Entrelinhas da RTM Portugal.
Podes também seguir a Ana Margarida em @amargaridablog.
