Ser Humano no século XXI
ESPIRITUALIDADE E O DIGITAL
David Raimundo
1/13/20269 min read


Ser humano no século XXI
Uma questão-chave face à tecnomania da nossa era ::
Num artigo oportunamente escrito em 2023 para o Movimento Lausanne, o Dr. Matthew Niermann apresentou uma lista de 10 perguntas que irão moldar a sociedade global até 2050. A primeira pergunta é extremamente certeira: “o que significa ser humano?” De acordo com Niermann, e, em grande medida, por causa dos desenvolvimentos tecnológicos, “a questão sobre quem e o que somos estará no centro da proclamação do evangelho e do discipulado contextual nas próximas décadas”.
Efetivamente, assistimos hoje ao advento de novas tecnologias que prometem melhorar a nossa humanidade, estender a nossa natureza e, na linguagem explícita de alguns proponentes, elevar a condição dos humanos à condição de semi-deuses. Refiro-me, por exemplo, às tecnologias que promovem o projeto transhumanista, a fusão do organismo humano e da máquina inorgânica, a inserção de nanoprocessadores nos nossos tecidos e de chatsgpts nas nossas mentes. Aqueles que crêem neste projeto prevêem “a possibilidade de redesenhar a condição humana, incluindo parâmetros como a inevitabilidade do envelhecimento, as limitações do intelecto humano e artificial, o sofrimento, e o nosso confinamento ao planeta terra”. Esta é uma crença que, nas palavras de Ray Kurzweil, um dos gurus do transhumanismo, chega ao cúmulo de profetizar uma espécie de iminente imortalidade do ser humano. É uma fé cega, pois nega a evidência de que o desenvolvimento tecnológico e digital não nos trouxe menor sofrimento. (Na verdade, a ciência tende a suportar a tese precisamente oposta.)
Em certa medida, esta tecnomania replica a estória primordial do primeiro Adão e da primeira Eva quando provaram o fruto proibido enganados pela serpente que sugerira a insidiosa possibilidade de usurpar as prerrogativas divinas: “o que acontece é que Deus sabe que no dia em que comerem desse fruto, abrir-se-ão os vossos olhos e ficarão a conhecer o mal e o bem, tal como Deus” (Génesis 3:5). Na estória do Génesis 3 está implícita uma dinâmica de insatisfação do ser humano por ser aquilo que é, um descontentamento pelas limitações inerentes à condição humana—talvez seja esse o pecado original, a raiz da perene rebeldia da criatura para com o Criador.
A encarnação de Cristo como lente cristã ::
O olhar cristão relativamente a este fenómeno assenta necessariamente numa doutrina robusta da encarnação de Cristo. Uma doutrina que não se ocupa apenas dos elementos estritamente cristológicos, sintetizados na Declaração de Calcedónia de 451 d.C. (“Jesus Cristo, …, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, consubstancial com o Pai de acordo com a divindade, e consubstancial connosco de acordo com a humanidade”), mas que se ocupa também de explorar, com uma certa criatividade teológica, as implicações ontológicas e missionais da realidade de que a “Palavra se fez homem” (cf. João 1:1).
A encarnação demonstra que não há nada de errado em ser-se plenamente humano. Se o primeiro Adão quis usurpar o lugar de Deus, o segundo Adão, “que por natureza era Deus, não quis agarrar-se a esse direito de ser igual a Deus” (Filipenses 2:6). Antes fez-se um de nós para redimir e restaurar a nossa humanidade—o que implica que não nos cabe fugir dessa mesma humanidade em direção a qualquer coisa sobre-humana. De acordo com as palavras de Paulo aos Efésios, em Cristo somos verdadeira humanidade (ver Efésios 4:24); em Cristo somos exatamente quem e aquilo que fomos criados para ser—incluindo o facto de sermos seres corpóreos, circunscritos, necessariamente e ontologicamente limitados. Tudo isto resulta, desde logo, da declaração ancestral do Criador no sexto dia: “Deus achou que tudo aquilo que tinha feito era muito bom” (Génesis 1:31). E tudo isto é definitivamente reafirmado porque o próprio Deus encarnou na pessoa do seu Filho Jesus, redimindo e consagrando assim a nossa plena humanidade. Numa perspetiva cristã, a nossa plena humanidade não é um obstáculo a ser ultrapassado, mas sim um horizonte a alcançar, experimentar, viver plenamente, em Cristo. Isto é boa notícia. Isto é evangelho.
Neste sentido, se desejamos adotar um olhar evangélico (e ético) sobre as tecnologias vindouras, devemos questionar-nos se elas não nos apresentam no tempo atual um decalque da tentação da serpente no tempo antigo. E, portanto, se elas não colocam o sério risco de nos tornarmos sub-humanos quando almejamos ser sobre-humanos; de nos tornarmos escravos quando almejamos ser livres; de gerarmos morte quando procuramos vida…




A natureza farmacológica da tecnologia ::
Estas questões não são tecnofóbicas, embora possam correr o risco de resvalar para a tecnofobia se não forem bem calibradas. Por isso, é necessário reconhecer que os avanços tecnológicos têm trazido um nível mais elevado de bem-estar à nossa sociedade e às nossas vidas (notando que “bem-estar” não é sinónimo de ausência de sofrimento). É bom reconhecer também que a saga tecnológica pode ser enquadrada como parte da vocação original do ser humano, englobada no chamado mandato cultural de Génesis 1:26-28.
Porém, na presente realidade manchada pelo pecado, é também necessário reconhecer que a tecnologia—toda a tecnologia—é como um fármaco [1]: a substância que, em dosagem adequada e nas circunstâncias certas remedeia males e protege a vida, é a mesma que, se mal administrada, envenena e mata. A fusão nuclear serve para produzir energia limpa e sustentável e para fabricar bombas com o potencial de causar carnificina inimaginável. A manipulação genética promete eliminar doenças genéticas e acarreta também múltiplos riscos e questões morais de extrema complexidade. A capacidade dos sistemas de inteligência artificial para processar quantidades gigantescas de dados pode ser útil para sintetizar novas drogas e pode revolucionar os diagnósticos médicos e ameaça causar também desemprego massivo e o definhamento das nossas aptidões criativas e do nosso espírito crítico.
Assim, ao procurarmos administrar com sabedoria e benignidade o uso da tecnologia a nível pessoal e social, será bom pararmos para refletir sobre o seu carácter humano (ou desumano): será que esta tecnologia, administrada nesta quantidade e nestas circunstâncias, respeita e valoriza a nossa plena humanidade? Respeita e valoriza até as boas limitações de ser-se humano? Aspetos como sermos:
seres sensoriais - os nossos sentidos são o ponto de contacto mais fiável com a realidade concreta à nossa volta;
seres corpóreos - de acordo com o paradigma da cognição corporificada (embodied cognition) todo o nosso sistema motor e sensorial está envolvido na percepção da realidade;
seres racionais - ainda que com muita nuance, podemos subscrever o princípio cartesiano que conecta a racionalidade e a existência (“penso, logo existo”); mas o que diremos sobre a nossa existência se delegamos o raciocínio às máquinas?
seres situados - circunscritos a um contexto, uma geografia, um espaço físico específico;
seres relacionais - dependentes da relação com o outro para ser verdadeiramente humanos (recordar Génesis 2:18); humaniza-nos até mesmo a fricção inerente às relações interpessoais com rosto, com proximidade, com presença física; a ausência desta fricção nas relações virtuais torna-as simultaneamente mais fáceis e mais desumanizadoras.
Em suma, será que esta tecnologia respeita a nossa essência enquanto seres “encarnacionais”?




Missão no século XXI
O autor do quarto evangelho conta-nos que, depois de ter ressuscitado, o Senhor Jesus apareceu aos discípulos e disse-lhes: “A paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio” (João 20:21). Ora como é que o Pai enviou o Filho? Enviou-o encarnado. Humano. Com todas as características comuns a essa humanidade. Para que fosse visto com olhares humanos, escutado com ouvidos humanos, tocado por mãos humanas (cf. 1 João 1:1). E os discípulos herdam este mesmo como, este mesmo modus operandi, a mesma vocação encarnacional, constituindo-se como comunidades tangíveis que expressam a boa nova por palavras e por meio de atos humanos de serviço, de justiça e de compaixão.
Sendo esta vocação inata à igreja, ela é ainda mais imperativa face às ideologias e tecnologias vigentes. É ainda mais imperativa face ao homem que, parafraseando o Zaratustra de Nietzsche na sua crítica parcialmente justa à religião cristã, “quis então que a sua cabeça transpassasse as últimas paredes, e não só a cabeça: até ele quis passar para o ‘outro mundo’…esse mundo desumanizado e inumano que é um nada celeste…” Torna-se assim ainda mais premente a afirmação de John Stott, já na reta final do seu ministério, antecipando a missão da igreja no século XXI, quando ele dizia que “toda a missão autêntica é missão encarnacional”.
Perante um mundo que nos empurra para a virtualidade, a missão cristã passa por abraçar, promover e exercer presença real, física, palpável, junto de pessoas reais. Passa por estar disponível para interagir concretamente e humanamente com o outro, o outro que, porventura, passará a estar acostumado a interagir apenas com a máquina, mas sedento de um ouvido humano que o escute, de um abraço humano que o conforte, de um olhar humano que o veja. Ser humano no século XXI, verdadeiramente humano em Cristo, será por si só evangélico, i.e., algo que demonstra o evangelho a concretizar-se na prática. Cada comunidade que partilha espaço, mesa, cargas, lágrimas, liturgia, etc. tenderá a ser cada vez mais bela e singela, e cada vez mais missional só pelo facto de ser o que é. Não podemos por isso negligenciar este desafio de sermos comunidade real, física, tangível em contramão à sedução da imaterialização. E que impacto teria se fossemos também comunidades formadas por pessoas capazes de usar ferramentas tecnológicas sem se deixarem usar por elas; gente que não se deixa aprisionar por nenhuma inovação, por nenhum gadget, por nenhuma rede, porque experimenta, também na relação com a tecnologia, a liberdade outorgada por Cristo.
Há dois milénios atrás, os nossos irmãos da Igreja Primitiva lidaram com a heresia do docetismo (do verbo grego dokeō, parecer). Alguns de espírito mais grego não suportavam a ideia de que o ser supremo se tivesse tornado humano, feito matéria, descido à nossa condição; por isso, disseminaram a ideia de que Cristo não tinha de facto encarnado e não era totalmente homem, apenas aparentava sê-lo. Mas a proposta de um Cristo virtual, um redentor imaterial, foi prontamente rejeitada pelos Pais da Igreja. De igual modo, talvez hoje tenhamos também de rejeitar explicitamente a ideia de uma igreja docética, a hipótese de uma igreja virtual e de uma missão digital. Isto não invalida que se procure usar o digital como primeiro ponto de contacto com o outro, mas sempre como convite para transitar para o mundo real, para o mundo encarnado, para relações com rosto e até com a bendita fricção. Por mais que seja desconfortável, só estas relações são terreno fértil para um discipulado profundo, duradouro, verdadeiramente transformador, plenamente humano—um discipulado que a máquina nunca poderá experimentar, nem facilitar.
[1] Como afirma o filósofo cristão David Lewin em “The Pharmakon of Educational Technology: The Disruptive Power of Attention in Education,” Studies in Philosophy of Education 35 (2016): 256.
A pergunta “o que é ser humano?” atravessa hoje muitas reflexões no seio da Igreja global.
No contexto do Movimento Lausanne, podes também consultar:
AI and Transhumanism: Collaborate Gap Summary (disponível apenas em inglês)


David Raimundo
No seu percurso académico de base, estudou Matemática e fez investigação nessa área, tendo concluído o doutoramento pela FCUL em 2013. Nesse ano casou com a Débora Raimundo e no ano seguinte viajaram para Timor-Leste, onde trabalharam durante 3 anos no setor educativo. Depois de um breve interregno em Portugal, voltaram a emigrar no início de 2019, desta vez para fazerem estudos de Mestrado em Teologia no Regent College, em Vancouver, Canadá.
No início de 2022 voltaram a Portugal, trazendo o pequeno Tomás (atualmente com 4 anos), e o David iniciou funções como Secretário-Executivo do Grupo Bíblico Universitário, coordenando o plano de formação de estudantes, a área editorial e a gestão interna da organização. Em 2024 nasceu o pequeno Jaime e aguardam o nascimento do terceiro bebé no verão de 2026.
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