Proteger Crianças da Violência Não é Opcional — É Um Chamado Urgente para Todos Nós

JUSTIÇA SOCIAL

Ana Margarida

11/26/20254 min read

Proteger Crianças da Violência Não é Opcional
É um chamado urgente para todos nós

Uma autoridade que abusa não nos faz ver Deus como protector.

No meu caso, a figura de autoridade que tinha dentro de casa fez-me sentir medo e pânico devido a cenas de violência em casa. Não tinha como saber lidar com estes sentimentos porque não nasci para ver o que vi e ouvir o que ouvi.

Toda a criança merece - e deve - viver num lar que a protege e a deixa em segurança. Embora não exista a família perfeita, a verdade é que protecção e segurança são os requisitos mínimos.

Porque é tão importante atentar para as crianças?

Em primeiro lugar pela vulnerabilidade.

Por mais que o(a) agressor(a) não atinja fisicamente, a verdade é que são gravadas profundas marcas que as fazem tornarem-se adultos ansiosos, isolados, depressivos ou agressivos. Ou entra o medo ou entra a raiva. Não existe meio termo.

Para além disto, correm sérios riscos de sofrer graves problemas de saúde - causados por fortes questões emocionais. E, ainda, problemas de desenvolvimento social e académico.

A verdade é esta: são agredidas - também - pelos gritos, insultos, ameaças de morte, e por verem os pontapés e os socos que são dados.

Em segundo lugar, porque são como esponjas.

Podem estar a ser ensinadas de que aquela é a forma de se tratar a pessoa que o(a) agressor(a) diz amar. Assim como podem estar a aprender (erradamente) que qualquer tipo de violência é um acto de amor.

Como podemos intervir?

As crianças raramente conseguem pedir ajuda com palavras, por isso precisamos de aprender a “ouvir” o que dizem através do comportamento. Medos repentinos, mudanças bruscas de humor, dificuldade em concentrar-se, carência afectiva ou distanciamento podem ser sinais de que algo não está bem.

Se uma criança confiar em ti e contar o que se passa em casa, isso é um acto de coragem — e merece toda a tua responsabilidade.. Nunca devemos minimizar, duvidar ou quebrar essa confiança. O nosso papel é acreditar, acolher e agir com responsabilidade.

Quando surgir uma oportunidade segura — sem colocar a criança nem a vítima em risco — é essencial denunciar. Podes fazê-lo na PSP ou na GNR, ou através da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ). Também é importante informar a escola, para que possa acompanhar a criança e evitar novas consequências dentro de casa.

Intervir não é interferir: é proteger. E, às vezes, a única voz que a criança tem… é a tua.

E como fica em relação à fé?

Mesmo que o faça inconscientemente, a criança vai ver Deus de forma deturpada e ainda acreditar que é um tirano que permitiu que tais coisas acontecessem.

Os pais - ou qualquer outra figura de autoridade - são responsáveis pela imagem que a criança vê de Deus. E, tendo em conta que a maioria da Violência Doméstica é executada por homens, não se admirem de ser difícil que estas crianças - algumas já adultas - vejam Deus como Pai.

A nossa salvação é Jesus, que nos mostrou quem o Pai verdadeiramente é e nada tem a ver com o(a) agressor(a).

Qualquer pai ou mãe - ou outro membro da família - precisa ter em mente que a violência doméstica não só destrói o casamento, como a vida de quem é fruto dele.

Não é da vontade de Deus que meninas cresçam a aprender que a violência é amor; assim como, não é da Sua vontade que meninos entendam que é assim que devem tratar as mulheres. Tal como não é o Seu desejo que ambos cresçam num ambiente de medo.

Ensinar «...a criança no caminho que deve andar» - Provérbios 22:6 - passa pelo exemplo que é dado dentro de casa.

Talvez possas perguntar: “Mas, Ana… como é que Deus existe se a maldade continua e inocentes sofrem?”

É aqui que te faço outra pergunta: Porque é que o ser humano continua a escolher o que é mau? Porque é tão mais fácil colocar a responsabilidade nos braços de quem dizem não existir e não acreditar - nestas alturas parece dar jeito, não é?

Na realidade, não estamos dispostos a nos educarmos sobre como intervir em situações do género - aqui chamo-lhe a síndrome de Caim, que quando Deus lhe perguntou (Génesis 4:9) pelo seu irmão Abel a resposta foi: «...por acaso sou responsável por ele?».

O ser humano tem sempre uma escolha e é responsável por cada uma. A violência é aprendida e é uma escolha se é executada ou não.

A vida destas crianças é importante para Deus, e Ele não deixa passar em branco quem brinca com a vida de inocentes.

Se este tema te despertou e queres saber mais sobre como a Igreja pode agir de forma prática, há redes dentro do Movimento Lausanne que oferecem recursos e caminhos de envolvimento.
A Rede Crianças em Situação de Risco trabalha na proteção de crianças em contextos de vulnerabilidade e abuso.
A Rede Crianças e Família apoia o fortalecimento das famílias e o cuidado espiritual e emocional nos lares.
E a Rede Liberdade e Justiça mobiliza cristãos em todo o mundo a agir contra a injustiça e a violência em todas as suas formas.

Cada uma delas lembra-nos que cuidar dos vulneráveis é também participar na missão de Deus — e que a transformação começa quando escolhemos não ficar em silêncio.

Ana Margarida

Como a Ana costuma dizer... "Tudo o que faço é uma extensão do que sou — e do propósito para o qual fui criada."

Colaboradora da RTM Portugal, professora de EMRE e parte da Riverside International Church Algarve.

Conhece mais do trabalho da Ana em amargaridablog.com e ouve o podcast Entrelinhas da RTM Portugal.

Podes também seguir a Ana Margarida em @amargaridablog.

Outros artigos...