O que molda o futuro da Igreja relevante: entre o amor ao lugar e a missão encarnada.

POVOS E MOVIMENTOSO EVANGELHO EM PORTUGALIGREJA SAUDÁVELMISSÃO E LIDERANÇA GLOBAL

Samuel Paulo Santos

12/4/20257 min read

O que molda o futuro da Igreja relevante
Entre o amor ao lugar e a missão encarnada

Começar Com Obediência

Estávamos nos finais dos anos 80, eu e a minha esposa, jovens, ainda à espera dos nossos filhos, iniciamos o nosso ministério na igreja que nos viu crescer na cidade do Porto. Vínhamos de uma formação de 3 anos na escola bíblica e estávamos cheios de ideias, sonhos e anseios. Iniciámos vários projetos tendo em vista alcançar os vizinhos da igreja, ir de encontro a uma comunidade que conhecíamos bem, pois foi aí que nós crescemos e nos tornamos líderes e então nessa altura pastores. Nem tudo correu bem, mas mesmo assim tivemos a alegria de depois de 6 anos deixar uma igreja que praticamente duplicou. Para nós foi, porém, clara a necessidade de mudarmos de cidade e iniciarmos uma nova igreja, numa nova comunidade que até então não conhecíamos: a cidade de Ermesinde, uma região urbana nas periferias do Porto com 40.000 pessoas aproximadamente, sem uma presença evangélica organizada, ainda que tivesse havido tentativas, nenhuma igreja se conseguiu implantar aí. Mal nós sabíamos o que viria à nossa frente.

O nosso sonho foi-se materializando na plantação de uma igreja, uma cidade composta, nessa altura, de pessoas locais e de outros nacionais, que por uma questão financeira e logística de proximidade do Porto, se haviam mudado para aqui. Sonhávamos em sermos os pés, as mãos e o abraço de Jesus para uma cidade de costas voltadas para Cristo. Aqui, em Ermesinde, havia (e há) um centro de peregrinação católica, entre outras marcas de religiosidade, bem como outras expressões do ocultismo. Iniciamos assim o nosso sonho de sermos uma igreja relevante numa cidade para alcançar os locais (nessa altura não havia internacionais).

Passaram 30 anos desde esse dia, e temos refletido sobre o que aprendemos e podemos aplicar agora que estamos a planear iniciar uma nova igreja na grande metrópole que é a cidade de Gaia. Quais os elementos essenciais que caracteriza uma igreja que quer conversar e abençoar a cidade e procura ser relevante, não necessariamente para receber os muitos (i)migrantes que chegam à cidade, mas principalmente para abençoar uma localidade e os locais com o amor de Jesus?

Amar o lugar onde Deus nos planta

Começa por amar o lugar onde Deus o colocou. Percorre as ruas, parques, comércios, instituições locais, restaurantes, cafés, sente a cidade e cheira o local onde Deus o está a colocar para conhecer e abençoar esse local. Reconhece que Deus já lá chegou, muito antes de teres considerado e orado por aquele lugar. Quando percorremos e oramos pela cidade, vila, freguesia onde estamos, o amor de Deus começa a crescer dentro de nós. O Evangelho não significa forçar as pessoas a ir à igreja (extração), trata-se de mobilizar a Igreja a ir ter com o mundo (encarnação)! Assim sendo, a Igreja participa na missão de Deus no mundo, sendo "enviada". Isto é a encarnação do Evangelho no mundo.

Integrar a fé na vida real

Algo que para nós fez sentido desde o princípio da plantação da igreja, foi termos uma visão da fé que cobre todas as áreas da vida, como afirmou Abraham Kuyper: “Não existe um centímetro quadrado em toda a esfera de existência humana em que Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: «É Meu!»” A cultura europeia, da qual somos parte, desafia-nos a como igreja também vivermos essa fé integrada e não uma fé segmentada. Daí que a partilha da fé se dá como relevante para toda a vida e não só para uma “parte da nossa vida”.

É no dia-a-dia e nos relacionamentos que encontramos a Deus e não somente num local, “a igreja”. A igreja que deseja ser relevante, precisa de resgatar a mensagem de Jesus em João 17:18 “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.” Cristo, através de nós, encontra as pessoas nas casas, nos cafés, nas ruas da cidade, e ainda que seja essencial e significativo os nossos espaços de culto, não podem ser o único local em que a Igreja se vai mover, mas terá de voltar às casas, aos cafés, aos ambientes de família onde os portugueses e europeus se sentem mais “em casa”.

Amor prático: a línguagem que torna o Evangelho visível

Olhando para o ministério de Jesus como um modelo na plantação da Igreja de Jesus, algo que O acompanhou foi o amor como relatado em Mateus 20.34 “Então Jesus, movido de íntima compaixão, tocou-lhes nos olhos, e logo seus olhos viram; e eles o seguiram.” Precisamos, se queremos que as pessoas nos ouçam, demonstrar amor por elas de uma forma prática e procurar como podemos ser parte da solução de Deus no local onde Ele nos colocou. Faz-me lembrar uma primeira conversa tida com o presidente da Junta de Freguesia, o qual logo de início nos afirmou que já haviam na cidade igrejas a mais. Após ter engolido em seco, mesmo assim eu disse-lhe que gostaríamos de encontrar uma forma prática de ajudar alguém na cidade. Poucas semanas se passaram e recebo uma chamada dele para pedir a nossa parceria num projeto de ajuda a uma família necessitada, e desde então várias iniciativas tem acontecido. Como costumo afirmar: ”Não temos um evangelho social, mas o evangelho é social.” A igreja de Jesus, o Corpo presente de Jesus aqui na terra, precisa de se preocupar em ser o próximo de alguém, tal como Jesus o foi de muitos, e então O ouviremos dizer “Vai e faz o mesmo”.

O futuro da Igreja em Portugal

Olhando à minha volta e ao ver as novas comunidades internacionais que surgem mais natural e aceleradamente entre nós, pergunto-me o que é que tantas vezes nos impede, a nós portugueses (e internacionais) de alcançar os nativos, os portugueses?

Precisamos de ter fé, a fé que Jesus apontou como necessária quando foi questionado pelos fariseus no que diz respeito à conversão do jovem rico.. “Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível.“ Mateus 19:26 Deus está a trazer pessoas inesperadas até nós e nós precisamos de crer que a salvação é um fruto divino e não um fruto humano – é o Espírito Santo que nos traz convicção do pecado, da justiça e do juízo.

Precisamos de nos livrar de modelos desajustados à nossa realidade – o mesmo Deus que está a operar na América Latina, em África é o mesmo Deus que opera aqui, mas ele opera de forma diferente. A forma de nos relacionarmos, o valor do Kronos (tempo), a estrutura social em Portugal é distinta de outros lugares. Usemos as histórias do agir de Deus em outros lugares para nos encorajar e motivar à fé, sabendo que a forma como Deus atua entre nós será singular.

Precisamos desenvolver, como dizia o meu professor de plantação de igrejas Dr. Samuel Faircloth, uma boa autoestima, ou seja, valorizar a história de Deus entre nós e descubrir o agir de Deus ao longo da nossa história como Igreja , valorizando os milagres que temos experimentado. A mensagem do Evangelho é de um Deus forte e de um povo fraco, tal como Paulo afirma: “ Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte. “ 2 Coríntios 12:10. Celebremos o Grande, Forte e Poderoso Deus que nós temos, e não tenhamos vergonha em assumir as nossas fraquezas.

Finalmente, não desistamos mas perseveremos, crendo no que o apóstolo Paulo afirma: “E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido.” Gálatas 6:9 Na minha história de plantação houve momentos em que desistir parecia o certo, mas olhando para trás, e vendo o que Deus fez, alegro-me de não o ter feito, pois teria perdido tudo aquilo que pela Graça de Deus o Senhor nos permitiu alcançar.

O que todos nós, pastores de grandes e pequenas igrejas, portugueses ou estrangeiros, queremos ouvir de Jesus são as palavras:"Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.“ Mateus 25:23

Soli a deo gloria

Se este tema te despertou e queres explorar mais sobre como a Igreja pode tornar-se presença viva na sua cidade, há redes dentro do Movimento Lausanne que oferecem caminhos práticos e inspiração global.

A Rede Cidades trabalha a missão urbana, ajudando igrejas a compreender e servir melhor o contexto onde estão inseridas.
E a Rede de Plantação de Igrejas apoia líderes que desejam iniciar comunidades saudáveis, contextualizadas e centradas no Evangelho.

Cada uma delas lembra-nos que a missão começa onde os pés tocam o chão — e que amar o lugar é parte do chamado de Deus.

Samuel Paulo Santos

Pastor da igreja “O Caminho” em Ermesinde, Coordenador da Rede de Multiplicação de Igrejas em Portugal.

O Lema da REDE é Mais Igrejas e Melhores igrejas – tendo assim 2 formas de ajudar a igreja- uma na área da plantação de igrejas e outra na área da revitalização.

Para conhecer mais do trabalho da Rede consulte o site https://www.rededemultiplicacao-portugal.org/ e caso deseje entrar em contacto.

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