Levar as pessoas ao Reino ou trazer o Reino às pessoas?

IGREJA SAUDÁVELMISSÃO E LIDERANÇA GLOBAL

Thales Santos

1/7/20267 min read

Levar as pessoas ao Reino ou trazer o Reino às pessoas?

Esta é uma questão que nos desafia a pensar. Afinal, para que a Igreja vive? Com que propósito? Qual é a nossa missão aqui na Terra? Para que fomos chamados? Bom, nós vemos o que Jesus nos diz acerca de amarmos a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, lemos sobre a Grande Comissão, a importância das boas obras, o cuidado com os de dentro, mas também dos vulneráveis de fora, a importância da família, enfim… Podíamos continuar a enumeração de responsabilidades às quais fomos chamados a atender, mas gostaria que nos focássemos na seguinte questão: somos chamados a levar as pessoas ao Reino ou trazer o Reino às pessoas? Esta questão parte de um conflito que não deveria existir: “evangelização ou discipulado?”, ou seja, “somos chamados a pregar o Evangelho ou a discipular?” E mesmo que para ti, leitor, a resposta seja clara, convido-te a mergulhar de cabeça no meio evangélico no qual estamos inseridos e a tirar um tempo para refletirmos juntos.

Certa vez, fui visitar uma igreja local enorme e, durante a celebração de domingo, foi projectado numa tela de todo tamanho um vídeo com dados estatísticos, gráficos e tabelas sobre o número de pessoas que supostamente decidiram seguir Jesus dentro daquela igreja no último mês, número de batizados, e mais outros dados. Eu entrei na igreja com milhares de pessoas e saí sem ter sido abordado por ninguém. A pregação foi baseada em versículos soltos da Bíblia, e na sua maior parte o pregador falou sobre as nossas emoções, isto é, foi uma reflexão baseada na Bíblia, mas que mais parecia uma palestra, o que me fez pensar: por que há tantas pessoas aqui dentro?

A verdade é que o mundo ocidental em que vivemos trabalha com números e otimização da produtividade - e isso até nos pode trazer algumas boas vantagens (por exemplo, através da tecnologia podemos levar o Evangelho a mais pessoas). Mas, muitas vezes, de modo infeliz e consequente, isso tem influenciado a maneira como nós interpretamos a Palavra de Deus.

Reflete comigo…

A Síndrome do Salvador

Existe um problema hoje em dia que é o de querermos tomar o lugar de Jesus Cristo.

“Que absurdo!” , podes afirmar, mas isso pode acontecer até de maneira inconsciente. Por exemplo, se ao evangelizar, eu falar mais da minha igreja local, ou, se ao discipular, o meu objetivo seja fazer a pessoa tornar-se mais parecida comigo, em ambos os casos pode ser que eu esteja a honrar e a servir mais a criatura do que o Criador (Rm 1:25). O poder não vem da Igreja, mas de Cristo. Quando nem o evangelismo nem o discipulado apontam para Jesus Cristo é porque estamos a colocar-nos no lugar dEle - e se assim for, certamente haverá frustração.

Pois estes mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém.” Romanos 1:25

O Poder do Discipulado

Atentemos por um momento ao que Jesus nos diz em Mateus 28:19,20: "Portanto, ide e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado. E eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo". A ênfase de Jesus não está na pregação em si só, mas no “ide e fazei discípulos”. Isso responde às nossas primeiras questões sobre a missão e chamado da Igreja de Cristo - os Seus discípulos são chamados a fazer discípulos de todas as nações. Ou seja, a nossa discussão não deveria ser “Evangelismo x Discipulado”, porque não existe esta separação - a pregação está intimamente atrelada a este chamado de discipulado. Não é sobre ir e falar apenas, mas sobre “ir sendo”. É um imperativo com um chamado contínuo.

Outra coisa importante, discipulado não é apenas para quem faz parte do Corpo. “Evangelizar os de fora, discipular os de dentro” - isto está errado se a frase significar uma fragmentação. Podemos, e devemos, discipular os perdidos, porque isso é mais do que sentar-se à frente de alguém com a Bíblia aberta e orar por ele; esta missão mostra-nos que muitas vezes as nossas atitudes falam mais alto do que as palavras. Em determinadas situações, não vais poder abrir a Bíblia, mas vais poder agir com compaixão no trabalho, vais dizer a verdade enquanto todos mentem, vais ser firme enquanto tentam desviar-te, vais servir àquela pessoa menos “fixe” que ninguém dá a mínima. Pelo menos uma pessoa vai intrigar-se com o que fazes de diferente e vai perguntar-te o motivo disso, e é aí que deves falar. Repara: “Estejam sempre preparados para responder a todos os que vos interrogarem acerca da esperança que têm.” (1 Pedro 3:15); a questão é “por que é que me interrogariam se me pareço com o mundo?”.

Lembremo-nos: a propagação do evangelho deve passar pelo discipulado em primeiro lugar, porque a pregação, em si mesma, não produz relacionamento. É impossível fazer discípulos sem investir em relacionamentos. Jesus investiu de perto em apenas 12, mas estava lá todos os dias com eles, pregando com as suas atitudes, mostrando-lhes que deviam ser os Seus imitadores em tudo o que fizessem. Somos chamados, portanto, a mostrar às pessoas que nos rodeiam como ser imitadores de Jesus Cristo, o nosso Salvador.

Mas atenção: com isso, não digo que a pregação não faz parte do nosso chamado. Estou apenas a dar toda esta ênfase porque devemos ir além das palavras. É o que Jesus diz: “Nem todos aqueles que me dizem: “Senhor, Senhor!” entrarão no reino dos céus, mas apenas os que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7:21). Somos chamados a anunciar as Boas Novas, vivendo uma “boa nova” vida em Jesus Cristo - vida esta que nos foi graciosamente oferecida por meio do Seu sacrifício vicário e ressurreição.

Como trazer o Reino?

Em primeiro lugar, o Reino de Deus não é ativismo ou moralismo; é morrer para o mundo e viver para Cristo. Mas isso tampouco significa deixar de interagir com o mundo e viver numa bolha.

“Não vivam de acordo com as normas deste mundo, mas transformem-se, adquirindo uma nova mentalidade. Assim compreenderão qual é a vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe é agradável e o que é perfeito.” (Romanos 12:2) Isso liga-se ao que Jesus diz a Nicodemos em João 3. Se Jesus, Deus santo encarnado, não veio para condenar o mundo, mas para o salvar, que direito temos nós, miseráveis pecadores, de o fazer? Quem é redimido e alcançado pela graça não deve anunciar condenação, mas salvação em Cristo Jesus. Essa é a vontade de Deus.

O Reino vem quando eu tomo consciência da minha natureza caída, decido viver para Cristo entendendo a Sua obra vicária, passo a anunciar e vivo como embaixador da redenção. Se eu vivi esta ressurreição com Cristo, então eu não vou ficar parado; eu obedecerei a vontade de Deus ao viver para a Sua glória.

Levar as pessoas ao Reino ou trazer o Reino às pessoas?

Portanto, não! Nós não somos Jesus. Não salvamos ninguém, quanto menos a nós próprios. Nós somos sim a Sua Igreja amada e escolhida para participar da missão redentora de Deus para toda humanidade. Nós não somos chamados exclusivamente a contar números, mas a trazer aquilo que Deus uma vez viu como muito bom à humanidade (“E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom” - Gn 1:31). E para isso é preciso fazer a Sua perfeita vontade, é preciso intencionalidade nos relacionamentos. O processo de evangelização deve sempre apontar para Jesus, não para a Igreja; o discipulado deve ser uma jornada de acompanhamento que visa um estilo de vida que glorifica o Criador, fazendo-nos parecidos com Jesus Cristo. O meu ponto aqui, que na verdade é o ponto de Paulo, é que somos embaixadores de Cristo (2 Coríntios 5:21), ou seja, mais do que missionários no sentido convencional da palavra, somos chamados a ser missionais e fazer a diferença onde quer que estejamos. Que o Senhor nos ajude!

Thales Santos

Thales Santos é líder de jovens na Igreja CCLX Coruche e missionário da SEPAL (Servindo a Pastores e Líderes). Atua como Gestor de Pessoas e Cultura do Lisbon Project, com foco no desenvolvimento de pessoas e na manutenção de uma cultura organizacional saudável, integrando liderança e missão.

Encontra o Thales aqui: @_thalesbs_

Outros artigos...