A igreja do Ide. [E não a que espera pelo Vinde.]
IGREJA SAUDÁVELMISSÃO E LIDERANÇA GLOBAL
Rubinho Pirola
10/29/20256 min read


A Igreja do Ide.
E não a que espera pelo Vinde.
Duas vocações, um mesmo Senhor
Há duas vocações especiais para o povo de Deus nas Escrituras, que parecem coincidentes, mas não são. A primeira delas foi o ‘Vinde’, convite do Senhor aos ‘cansados e sobrecarregados’, aos quais Ele prometeu que os aliviaria, ‘pois o Seu fardo é leve’, conforme Mateus 11:28 e 30; e a outra vocação foi a do ‘Ide’, de Mateus 28:19,20: e... “ensinemos todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que Ele nos tem mandado”.
Quando a Igreja se acomoda
Creio que um dos grandes perigos que enfrentamos como cristãos, é quando essa vocação do IDE, é trocada pela do VINDE, em que vimos nós, e as comunidades cristãs, a acomodarem-se e a esperarem que o segundo apelo seja suficiente para a satisfação Daquele que nos vocacionou.
Em Portugal, há anos que é mais do que sabido que nos acomodámos à periferia da sociedade, quando proibimos – ou desestimulámos - a ida dos filhos para as universidades. Ao desestimularmos o viver-se na plenitude o exercício da cidadania, na atenção obrigatória não apenas ao exercício dos nossos direitos, mas sobretudo aos deveres, tais como o servirmos a sociedade, e a agirmos assim, tentámos viver como se fôssemos já, e ainda aqui, neste chão, cidadãos apenas do Reino dos céus, limitando-nos ao serviço apenas aos domésticos na fé, e deixando às outras confissões – como os católicos-romanos, dentre outras – o cuidar dos pobres e desvalidos e a participação ativa nos destinos da urbe, da cidade, da nossa nação.
Redescobrindo o verdadeiro IDE
E isso não foi algo exclusivo nosso, pois há cerca de 50 anos, fizemos todos nós – evangélicos, protestantes, ou reformados - um mea-culpa aquando do Congresso de Lausanne, e do seu pacto, que, entre outras coisas, nos lembrou sobre um conjunto de ações específicas que devem acompanhar a nossa missão de comunicar o evangelho à sociedade de maneira integral, e não apenas limitando-a a uma mera proclamação verbal. Assim, incentivámo-nos, desde então, às ações práticas de serviço e amor ao próximo, como também ao diálogo e à união entre cristãos evangélicos, para a missão de Deus no mundo.
Sem dúvida, este nosso engajamento social em todas as esferas da sociedade, e a promoção da justiça, como integrantes de uma ordem do Reino Celestial, levou-nos a uma época de colheitas fantásticas e de transformação em muitas partes do globo, e a ganhos visíveis também aqui em Portugal.
Mas creio, infelizmente, que, atualmente, nestes dias em que as igrejas ganham espaço nos media e nas nossas cidades, todos nós precisamos de nos lembrarmos do que concordámos aquando da celebração do Pacto. E, sobre isso, reforço: a nossa chamada ainda é a do ...IDE!
O IDE como estilo de vida
Como um cristão a exercitar-se na missão, nas áreas do marketing e da comunicação social, em igrejas e pela AEP, durante quase duas décadas percorremos o país a desafiar igrejas e associações a ‘ocuparem-se’ a pensar com a cabeça do outro, a conhecerem-se (no mínimo), a celebrarem e a servirem juntos, como um corpo de serviço de construção de urbes, ou de ajuntamentos humanos e não só (mas de todo um país o mais justo, fraterno e solidário possível), e, deste modo, valendo-nos dos princípios e valores bíblicos-cristãos.
Infelizmente, vemos repetirem-se ainda alguns erros cometidos por nós ao longo da história. E especifico: aquelas nossas ‘visões’ particulares, uma nossa subcultura ...sobreporem-se a uma postura condizente com o Evangelho: a de sermos agentes de transformação nas mãos Daquele que nos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz, luz essa que deve ser mostrada a todos, como uma vela acesa, ‘não debaixo do alqueire, mas diante dos homens, da comunidade, para que vejam as nossas boas obras e assim, glorifiquem a nosso Pai que está nos céus’, conforme descrito em Mateus 5:14-16.
Contra isso, criamos calões (que quase requerem um tradutor eletrónico), e sem eles, muitos imaginam, somos menos fiéis, menos ...cristãos. E também frases-feitas, que deixam os ‘de fora’, mais de fora ainda. ... e estilos musicais ‘próprios’, modos de fazermos música, e ‘arte’ de qualidade discutível. Vimos crescer o orgulho denominacional quase que como corporações com a sua vaidade mercadológica, e padrões quase comerciais. Assim, veem-se disputas, guerras entre igrejas ou comunidades que se veem como ‘concorrentes’, num desprezo pela unidade da fé numa mesma localidade, vila, ou cidade, numa prática que apenas revela aos cidadãos ‘de fora’ a nossa vaidade, a nossa falta de empenho em aprendermos juntos, e, assim, a negação do facto de sermos família, partes de um mesmo corpo. E este, de Cristo.
Mas não apenas isso. Deixámos de ir até ao poder civil para com eles pensarmos sobre como podemos – juntos – contornar os problemas que nos afetam a todos, na melhor maneira proposta pelo saudoso pensador cristão Francis Schaeffer, no termo ‘co-beligerância’, que significa uma aliança de cooperação e o juntar de esforços, por um tempo, com aqueles que necessariamente não pactuam - totalmente - connosco no que cremos. Até onde podemos andar, fá-lo-emos pelo bem comum, que é o de transformarmos a nossa terra, a de todos nós – para melhor.
Então, é urgente que os nossos encontros, a nossa liturgia (em muitos casos, que mais dizem respeito a nós), as nossas estratégias, sejam moldadas por um esforço para que comuniquemos a mensagem de amor e salvação do Senhor com clareza, qualidade estética, e na maior possibilidade de entendimento e perceção aos ‘de fora’.
Traduzir-se para um português claro, isto tem a ver com o nosso empenho por estarmos perto dos que andam longe de Deus, como diria um saudoso bispo anglicano brasileiro, Robinson Cavalcanti: ‘manifestarmos o reino de Deus, na maior expressão possível, aqui e agora, o que será efetivado, ali e além, na eternidade’.
Isto tem também a ver com o que percebo hoje como uma ‘vida de santidade’. E esta, certamente, assim, não tem a ver com ‘o quando nos esforçamos por lutar contra o nosso próximo para que nós venhamos a garantir a nossa salvação, mas com o quanto lutamos contra nós, para que ele seja salvo’.
Troquemos então o VINDE, pelo IDE, que o Senhor nos deixou como ordem!
O Movimento de Lausanne tem procurado inspirar a Igreja global a viver esse evangelho em movimento — com fé, propósito e presença.
Abaixo encontras alguns recursos que aprofundam esta visão e ajudam a transformar convicções em prática.
Rede Temática "Cidades"
Rede que conecta líderes cristãos comprometidos em impactar espiritualmente e socialmente as suas cidades.
Promove oração, investigação e colaboração entre diferentes setores — igreja, negócios, cultura e comunidade — para inspirar uma presença cristã relevante no espaço urbano.
O objetivo é ver o Evangelho incorporado em todas as áreas da vida citadina, transformando as culturas “de dentro para fora” e refletindo a plenitude de Cristo nas cidades do nosso tempo. Acede aqui.
Estado da Grande Comissão
Análise global mais recente sobre o estado da Grande Comissão — identifica onde o Evangelho já chegou, onde ainda não chegou e quais os desafios que a Igreja enfrenta hoje para cumprir a sua missão. Acede aqui.
Cada uma delas lembra-nos que cuidar dos vulneráveis é também participar na missão de Deus — e que a transformação começa quando escolhemos não ficar em silêncio.


Rubinho Pirola
É pastor, cartunista, diretor executivo da Rádio Transmundial de Portugal, licenciado em Marketing e Publicidade, Pós-graduado em Edição de Novos Conteúdos Digitais e mestre em Ciência das Religiões e académico investigador sobre ‘a Relação entre o Humor e o Sagrado’, e membro da direção da Aliança Evangélica Portuguesa
Conhece mais do trabalho da Rubinho em @rubinhopirola.
